Brasília – O Brasil e a China devem ratificar a abordagem pragmática nas relações bilaterais com visões de longo prazo e explorar as oportunidades no plano econômico e comercial, em ciência e tecnologia e no intercâmbio cultural, disse em entrevista à Xinhua o economista Demian Castro, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e criador do Centro de Estudos Brasil-China da entidade.
Na véspera da primeira visita oficial à China do presidente Jair Bolsonaro, que desembarcará em Beijing nesta quinta-feira, o especialista brasileiro destacou os importantes avanços das relações bilaterais nas últimas duas décadas.
A China se converteu no principal parceiro comercial do Brasil em 2009, e o período mais recente tem mostrado um forte crescimento dos investimentos chineses no país sul-americano e os vínculos entre os dois países crescem nas mais diversas áreas.
Castro assinalou que, até 40 anos atrás, Brasil e China podiam estar equiparados nos indicadores socioeconômicos, mas que o país asiático, agora, está em um nível muito superior, graças a grandes transformações estruturais e avanços em ciência e tecnologia.
O impulso da China para se associar ao mundo não se limita aos intercâmbios econômicos, recordou Castro, mas também contempla a cooperação científica, tecnológica e cultural, e propostas para criar de desenvolvimento em benefício mútuo.
“A China tem uma agenda, um conjunto de propostas para os países em desenvolvimento que é uma janela de oportunidade para países como o Brasil, que não têm uma pauta exportadora tão desenvolvida, mas precisa ter mercados externos. Também temos muitas carências de infraestrutura para as quais a China pode ser muito importante”, destacou.
“Ao mesmo tempo, acredito que nós temos potencialidades muito grandes, ligadas à nossa biodiversidade, a uma forma diferente de ser. Vejo que as relações Brasil-China devem continuar crescendo marcadas por visões de longo prazo e que os dois países têm muito a ganhar com isso”, acrescentou.
Entre as possibilidades para ampliar os vínculos bilaterais, Castro mencionou a iniciativa do Cinturão e Rota, que também foi proposta aos países da América Latina.
“A iniciativa do Cinturão e Rota é uma proposta grandiosa, um conjunto de oportunidades muito interessantes, ao mesmo tempo em que representa uma agenda de desenvolvimento diferente da dos centros tradicionais de poder”, comentou.
Castro recordou que o Brasil tem muitas carências de infraestrutura e que por isso seria muito interessante ter uma saída para o Pacífico, que facilitasse o transporte de mercadorias.
“Acredito que, de certa maneira, o Cinturão e Rota aponta para uma ordem internacional multipolar, diferente da ordem que tivemos no pós-guerra. Acho que o Brasil teria muito a ganhar nesse megaprojeto chinês, que, acredito, vai se adaptar, à medida que os sócios forem aparecendo com suas necessidades específicas”, destacou.
Para o professor da UFPR, nesta fase, o Brasil deve manter sua característica tradicional de ser um país multilateral, com sócios em todo o mundo, com todos os países.
“É muito importante reforçar que temos todo o interesse de manter a relação de longo prazo com a China. Não é apenas por uma questão econômica, mas também de respeito à história da China. Brasil tem 500 anos e a China tem 5.000 anos. O legado da China é tão grande que nós só temos a ganhar com isso”, assinalou.
Outra área na qual a cooperação bilateral pode ser muito frutífera é ciência e tecnologia, em especial para os esforços brasileiros de se adaptar à nova economia digital.
“Creio que é muito importante para o Brasil essa colaboração da China, com seu conhecimento e maior produtividade, na indústria 4.0. Nós temos uma rede de universidades e centros de pesquisa com gente de muita capacidade. A China tem muito a oferecer no campo da economia digital”, afirmou.
“Também para nossa busca de conhecimento, de tecnologia, de não ser eternamente subordinado à tecnologia dos países desenvolvidos. Creio que temos que saber aproveitar, mobilizar a comunidade científica para aproveitar as possibilidades que a China está abrindo”, acrescentou.
Segundo o professor Castro, a aproximação de longo prazo com a China, além de pragmática, deve ser um encontro cultural e filosófico, de reconhecimento mútuo.
“Se o governo entende que é necessário ser pragmático, explorar, negociar, abrir as oportunidades, que assim seja. Também necessitamos de uma boa diplomacia e bons negociadores, mas não apenas pessoas que representem interesses de empresas”, afirmou.
Destacou também que a visita do vice-presidente Hamilton Mourão em maio passado a Pequim, onde chefiou a delegação do país na reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível (COSBAN), contribuiu muito para essa abordagem pragmática na relação com a China.
“Acho que essa postura pragmática é muito necessária neste momento, para que permaneça e tudo que houve de avanços até agora possa crescer. Espero que o pragmatismo prevaleça”, finalizou.
Fonte: Comex do Brasil